Não tenho medo do aquecimento global e acho ok o Irã enriquecer urânio. O que mais me assusta na atual conjuntura global é a palestrização do mundo.
Vivemos a apoteose triunfal do caga-regras no seu pior formato, disfarçado de gente inteligente e esclarecida, e disposto a discutir todos as questões cruciais para o desenvolvimento humano e a perpetuação da nossa espécie na Terra.
Toda vez que ligo a TV e perco cinco minutos zapeando entre alguns canais ouço entre duas e seis palestras. Até nas novelas tem gente dando palestras. Aliás, as novelas são só palestras. Nada de tramas, intrigas, traições e paixões proibidas, a moda agora é palestrar pelado. Pior que nem pelado é. Se alguém, o Tony Ramos por exemplo, aparecesse numa cena palestrando pelado seria uma muito, muito engraçado. Mas as pessoas aparecem vestidas como seres distintos e aptos a abordar qualquer tema – a palavra ‘abordar’ aprendi nas palestras; a expressão ‘trazer à baila’ também.
Nos livros é a mesma coisa. Quem precisa de personagens e historias se podemos escrever palestras? Pra que ser romancista se posso ser palestrante por escrito? Você nunca abriu um livro e sentiu no começo do segundo capítulo uma luzinha de laser apontada pro seu nariz? Então, era um personagem tentando começar uma palestra.
Personagem de novela, filme e livro é tudo palestrante disfarçado. Quando menos você espera eles sacam um tema polêmico e te apunhalam pelas costas, ou melhor, te aspeiam pelas costas.
Internet é palestra pura. Blogueiros ganham a vida dando palestras. Sommelier no restaurante não te ajuda a escolher o vinho, faz uma palestra. O mendigo no semáforo não te pede uma esmola, faz uma explanação sobre a situação de exclusão dele. Os jornalistas jamais te informam sobre um fato, eles fazem da notícia a sua mini-palestra.
Cadê a fofoca, minha gente? Cadê o sensacionalismo, a violência, a pornografia? Cadê os contadores de história? Saudoso Rolando Boldrin.
O grande erro foi ter deixado as palestras fugirem das universidades. Deixem as palestras para a universidade. Prendam os palestrantes nas universidades. E coloquem uma placa na porta: Cuidado! Palestra.
Aprendi nas palestras que devo gostar dos pretos, ajudar os pobres, drogados, aleijados e retardados. Devo ter uma alimentação equilibrada, mesmo que minha cabeça não seja. E devo perguntar ao Papa se posso usar camisinha. Mas também aprendi que não posso dizer nunca as palavras preto, pobre, drogado, aleijado, retardado, bandido, fritura e camisinha.
Sofrimento atroz de viver num mundo onde tudo é discussão séria sobre um tema importante. Espero pelo dia em que estarei tomando banho e terei meu box invadido por um palestrante esclarecendo-me sobre o problema dos banhos matinais. Abrirei a geladeira e um palestrante sairá de trás da mortadela com uma apresentação em Power Point projetada no meu peito. Se chegarmos a esse ponto, me disponho a morrer pela causa. Prometo me explodir por um mundo sem palestras na fila do Espaço Unibanco ou na choperia do Sesc Pompéia. Em troca só peço que não transformem a minha causa numa palestra.
E antes que eu me esqueça: vai conscientizar a tua mãe, filho da puta!
18 Comentários
Junho 5, 2007 às 3:12 pm
Podemos adotar a solução de Stalin: “Menos gente, menos palestras”, mas estou de acordo, vivemos a era em todos ficam tentando esfregar verdades na cara uns dos outros. E quando te descuidas, pronto, “te aspeiam pelas costas”.
Junho 5, 2007 às 3:15 pm
Muito bom! A melhor palestra sobre palestras que eu já ouvi!
Junho 5, 2007 às 3:18 pm
Ainda: deveria haver um medidor indicando quando uma palestra estava começando a surgir,tipo um palestrômetro. Dependendo do tempo, das palavras, da impostação, pernosticismo e dicas de vida, o aparelhinho começava a emitir ruídos ensurdecedores, que impediriam uma palestra de ser ouvida!
Junho 5, 2007 às 3:21 pm
Verdade. E o post é tão bom que senti um momento de paixão quase adrillesiana por você. :>)
Junho 5, 2007 às 6:12 pm
Também, como evitar? Logo no começo da Odisséia, Atena palestra aos deuses conscientizando-os do sofrimento de Ulisses, e Telêmaco palestra aos reunidos pretendentes de Penélope; o Novo Testamento é palestra quase inteiro, dos Evangelhos à última epístola; Moisés desce do Sinai e palestra e conscientiza e palestra e conscientiza dali até o fim do Pentateuco; os Provérbios de Salomão são quase uma apresentação em Power Point; Shakespeare — esqueçamos os monólogos — palestra até nos sonetos; o Dom Quixote palestra em cada hospedaria e batalha, a cada viajante e inimigo; e nem cheguei a Dostoiévski. Que é que tu querias?
Junho 5, 2007 às 6:42 pm
É isso mesmo, Glhrm, sempre foi assim e não só a literatura mostra isso, fia.
Junho 5, 2007 às 9:17 pm
Maravilha, ruiva : )
Junho 5, 2007 às 9:44 pm
melhor post
Junho 5, 2007 às 10:02 pm
Hoje em dia, só Itália que non Palestra, cáspita.
Junho 6, 2007 às 6:15 am
Não sei se ”paixão adrillesiana” é boa coisa, mas o texto é, de fato, uma tetéia, como, de resto, também o é a dona do dito cujo, para dar embasamento à citação do Silva aqui debaixo.
Junho 6, 2007 às 10:18 am
Veja bem……
Junho 6, 2007 às 11:15 am
Haha, adorei a luz de laser no nariz. Bem que uma vez eu senti a vista ofuscada e não entendi por quê. ^^
Junho 9, 2007 às 6:02 pm
Todavia, por outro lado…
Junho 10, 2007 às 9:10 pm
Bêdi gud, bêdi gud…
Junho 15, 2007 às 2:22 pm
Sensacional. Mas é uma palestra. Ei, você podia ganhar dinheiro com isso!
Junho 23, 2007 às 12:17 am
Genial essa pales.., ops, esse post.
Sodade, meu bem, sodade.
Outubro 3, 2007 às 5:42 pm
Um texto do George Meyer (aquele dos Simpsons) pra fazer par com este. O seu tá muito melhor, claro! E foi publicado pelo wunderblogs!!
http://www.newyorker.com/humor/2007/05/28/070528sh_shouts_meyer
Novembro 16, 2007 às 7:19 pm
Seu post foi considerado pertinente e mencionado nos dompinios de Darth Bates.
http://darthbates.blogspot.com