Maio 27, 2008

Curso de retórica Caminho Suave

Cansado de procurar pessoas interessadas em debater com você? Cansado de ouvir sempre a mesma desculpa: “Essa não é uma questão para ser discutida.”? Então chega de se privar dos debates. Sua hora é agora.

Depois do sucesso de Como vencer um debate sem precisar ter razão, nasce um novo best-seller: Como vencer um debate que não estava lá.

Nossas técnicas revolucionárias chegaram para te ajudar a falar sobre qualquer tema como se ele fosse polêmico. Depois de ser treinado por nós, todas as suas conversas vão parecer discussões fundamentadas e honestas, afinal, você está sempre olhando os dois lados da questão, independente de quantos lados a questão tiver, e sempre respeitando seu opositor, mesmo que ninguém tenha se posicionado como seu adversário. Desde quando um debate precisa ter quorum mínimo para acontecer?

Só losers precisam de um antagonista intelectual para vencer uma discussão. Você é diferente. Você é um vencedor nato e vai ganhar todas as discussões que não existem e, o que é mais fantástico, sem nenhum adversário para te atrapalhar.

Veja uma amostra do nosso curso:

Nível Básico
O cachorro bebe água na cuia.
A cuia é do cachorro.

Nível Intermediário
A babá lava o bebê.
Eu vejo a barriga do bebê.

Nível Avançado
Vejo uma bonita vaca.
A vaca é a Violeta.
Violeta é do vovô.
Vovô bebe leite da vaca.

PhD
Vovô bebe e baba leite na cuia do cachorro.
Eu vejo a bonita barriga violeta da babá.
A vaca lava o bebê no leite da cuia.

Mas se você teme o inferno, lembre-se que existe a regra dos covardes: não promovei falsos debates. Como disse o outro, antes de se debruçar sobre qualquer questão, encostai sua bunda na parede, esgueirai-se até o sofá e permanecei imóvel na frente da televisão até que venha a preguiça e ela seja invencível. Se for usada para evitar debates, a preguiça não é considerada pecado.

“Nunca! Calar jamais! Quero debater para sempre sobre todas as coisas. Vou até o inferno!” Então você é um dos nossos. Leia já o nosso livro. É sempre bom lembrar para esses que condenam o debate, que Jesus muito provavelmente não teria sido crucificado e morto se tivesse usado melhores argumentos. Ele podia até ter uma bom coração, mas pecou pela falta de clareza na hora de defender Suas idéias. Nesse mundo ninguém sobrevive só de boas intenções.

E os 33 primeiros que não quiserem acabar como o Cristo e comprarem o nosso livro, levam de graça o CD Fale como se estivesse discutindo, com técnicas para você treinar a sua voz e saber usá-la a seu favor nas suas próprias discussões. Fale com a sua sobrinha de seis anos, com a sua iguana, sua avó com Alzheimer, fale sozinho no banho e fale dormindo, sempre como se estivesse argumentando num grande debate.

Porque promover os próprios debates sem depender de temas e adversários é a principal marca dos vencedores.

Maio 23, 2008

Biotônico Fontoura

Hoje eu vi um menino pequeno, tinha uns cinco anos. Conjuntinho de malha com as peças combinando e tênis limpo, os cadarços com laços bem dados. O cabelo úmido repartido exatamente no meio. Olhava a rua parado em pé do lado de dentro do portão da casa.

A mãe veio com uma nota de dinheiro e moedas, depois destrancou o cadeado do portão. O menino saiu com pressa, quase um sorriso. O menino voltou rápido segurando apertado na mão um saco de papel com pães, e moedas. A mãe esperando no portão aberto. A mãe de rosto faminto e o menino de conjuntinho combinando. A mãe não pegou o troco, ele tentando entregar. Quando o menino passou por ela, olhou de cima sua cabeça dividida no meio, o cabelo bem repartido. O cadeado voltou para a corrente do portão e o menino sumiu na porta da casa com o pão. A mãe entrou atrás, arrumou com o pé o tapete da entrada.

O menino pequeno de cabelo repartido, tênis limpo e roupa combinando, parado do lado de dentro do portão da casa. Tanto que a vida é besta e as mães são cruéis.

Maio 19, 2008

Só a bricolagem salva

Se você é daqueles que não se arrebata fácil, que se acha imune a todo tipo de experiência religiosa, espere até a sua primeira visita a uma megastore de material para construção. Impossível não sucumbir diante da mera visão da seção de torneiras. É todo um universo de soluções em torneiras que se descortina diante dos seus olhos de ateu e transforma definitivamente o sentido da sua vida na Terra.

Mas nem só de torneiras vive um homem, há mais, muitos mais. Uma infinidade de mundos nunca antes imaginados convivendo sob o mesmo teto de zinco, prontos pra arrebatar você, homem de pouca fé: tomadas e interruptores, fechaduras e maçanetas, pisos e azulejos. Há para todos os gostos e parafilias.

E tampas de privada, então? Você pode passar uma vida aprendendo sobre tampas de privadas. Pode jogar fora todos os seus livros e ocupar as prateleiras da sua biblioteca com tampas de privada. E emprestar tampas de privadas para os amigos mais íntimos. E reuní-los na sua biblioteca para tomar whisky, fumar um bom charuto enquanto debatem sobre tampas de privada:

“Tampa de privada é crime?”

“Não, acho que é aborto.”

“Mas aborto é crime, não?”

“Não, aborto é tráfico de órgãos.”

“Ah, mas então tampa de privada é violação de cadáver.”

“É, pode ser. Tem cara de ser.”

“Blog. Tampa de privada é blog. Tenho certeza.”

“Que é blog, é. Mas também pode ser site de relacionamento.”

“Site de relacionamento? Sei não. Tava pensando que pode ser sexismo.”

“Acho que essa com estampa camuflada aí atrás de você é meio sexista mesmo.”

“E essa fosforescente?”

“Essa é traveco.”

“Transex, Eduardo. Transex…”

E eu vos digo: é mais fácil, e mais rápido, um rico entrar no reino dos céus com camelo, agulha, buraco, privada e tudo do que escolher o assento certo para o seu banheiro.

Maio 13, 2008

Americano encontrado morto em Natal. Polícia suspeita de pedofilia

Assisto aos jornais da TV com meu caderninho de pistas na mão. Gravo as notícias e depois tento decifrar cada uma delas. É divertido. E depois de três ou quatro horas eu me sinto uma detetive muito bem informada, graças aos gênios do mistério dos telejornais e minha sagacidade bem treinada — sempre assisto House pra treinar.

Todas as notícias são mais ou menos assim: “Num condomínio de luxo de um bairro de classe alta da capital paulista, uma suposta quadrilha especializada em assaltos a prédios, fez refém o provável porteiro e levou objetos de valores de pelo menos três dos quase vinte apartamentos. Entre os moradores assaltados, está um popular jogador de futebol de um dos mais tradicionais clubes desta capital que preferiu não dar declarações. Em sua página pessoal em um famoso site de relacionamentos da Internet, o jogador lamenta o ocorrido e diz desconfiar que pessoas conhecidas tenham participado da ação. No 72o. DP da zona noroeste, o delegado responsável pelo suposto caso provavelmente entrevista as vítimas em busca de pistas e talvez tenha dito que ainda não é hora de falar sobre o caso, mas já adiantou que pode se tratar de uma ação orquestrada.”
Ufa! Nem Hitchcock faria melhor.

Achava mesmo muito careta o jeito antigo de contar a notícia determinando quem, o que, onde, quando e o porquê. Muito mais instigante essa nova linha editorial que não traz nenhum desses elementos determinados. Não entrega a notícia pronta, faz o público pensar. Torço para chegar logo o dia em que todos os fatos serão supostos — como o suposto mensalão.

Pelo jornalismo cartesiano: o tempo todo questionando a realidade. Ops…suposta realidade, é claro.

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E duas grandes notícias que abalaram Bangu:

População de Jericó deixa de comer carne com medo de AIDS

Boato faz notas de R$ 1 saírem de circulação

Novembro 28, 2007

Minha pequena Eva

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A nova novela da tevê estatal.

Junho 19, 2007

Anhangüera

Quero almoçar bem longe,
Quero almoçar na Zona Leste.
Ou, quem sabe, almoçar num quilo em Cambuci.

Se o trânsito estiver bom, quero almoçar em Sapobemba.
Depois tomar café no Jaçanã,
E tirar um cochilo no Tucuruvi.

Casar-me em Marsilac,
Ter um filho na Brasilândia,
Mudar-me com a família para o Mandaqui.

Atropelada em Tremembé,
Internada em Pirituba,
Morrer duas horas depois na emergência do Pari.

Quero ser velada no Carrão,
Morada eterna no Limão.
A missa de sétimo dia, no Taboão.

Junho 5, 2007

Ide e palestrai

Não tenho medo do aquecimento global e acho ok o Irã enriquecer urânio. O que mais me assusta na atual conjuntura global é a palestrização do mundo.

Vivemos a apoteose triunfal do caga-regras no seu pior formato, disfarçado de gente inteligente e esclarecida, e disposto a discutir todos as questões cruciais para o desenvolvimento humano e a perpetuação da nossa espécie na Terra.

Toda vez que ligo a TV e perco cinco minutos zapeando entre alguns canais ouço entre duas e seis palestras. Até nas novelas tem gente dando palestras. Aliás, as novelas são só palestras. Nada de tramas, intrigas, traições e paixões proibidas, a moda agora é palestrar pelado. Pior que nem pelado é. Se alguém, o Tony Ramos por exemplo, aparecesse numa cena palestrando pelado seria uma muito, muito engraçado. Mas as pessoas aparecem vestidas como seres distintos e aptos a abordar qualquer tema – a palavra ‘abordar’ aprendi nas palestras; a expressão ‘trazer à baila’ também.

Nos livros é a mesma coisa. Quem precisa de personagens e historias se podemos escrever palestras? Pra que ser romancista se posso ser palestrante por escrito? Você nunca abriu um livro e sentiu no começo do segundo capítulo uma luzinha de laser apontada pro seu nariz? Então, era um personagem tentando começar uma palestra.
Personagem de novela, filme e livro é tudo palestrante disfarçado. Quando menos você espera eles sacam um tema polêmico e te apunhalam pelas costas, ou melhor, te aspeiam pelas costas.

Internet é palestra pura. Blogueiros ganham a vida dando palestras. Sommelier no restaurante não te ajuda a escolher o vinho, faz uma palestra. O mendigo no semáforo não te pede uma esmola, faz uma explanação sobre a situação de exclusão dele. Os jornalistas jamais te informam sobre um fato, eles fazem da notícia a sua mini-palestra.

Cadê a fofoca, minha gente? Cadê o sensacionalismo, a violência, a pornografia? Cadê os contadores de história? Saudoso Rolando Boldrin.

O grande erro foi ter deixado as palestras fugirem das universidades. Deixem as palestras para a universidade. Prendam os palestrantes nas universidades. E coloquem uma placa na porta: Cuidado! Palestra.

Aprendi nas palestras que devo gostar dos pretos, ajudar os pobres, drogados, aleijados e retardados. Devo ter uma alimentação equilibrada, mesmo que minha cabeça não seja. E devo perguntar ao Papa se posso usar camisinha. Mas também aprendi que não posso dizer nunca as palavras preto, pobre, drogado, aleijado, retardado, bandido, fritura e camisinha.

Sofrimento atroz de viver num mundo onde tudo é discussão séria sobre um tema importante. Espero pelo dia em que estarei tomando banho e terei meu box invadido por um palestrante esclarecendo-me sobre o problema dos banhos matinais. Abrirei a geladeira e um palestrante sairá de trás da mortadela com uma apresentação em Power Point projetada no meu peito. Se chegarmos a esse ponto, me disponho a morrer pela causa. Prometo me explodir por um mundo sem palestras na fila do Espaço Unibanco ou na choperia do Sesc Pompéia. Em troca só peço que não transformem a minha causa numa palestra.

E antes que eu me esqueça: vai conscientizar a tua mãe, filho da puta!

Maio 31, 2007

La hoja de coca no es droga

Isso é que é socialismo!
Todo mundo na Bolívia é igual ao Evo Morales

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Reparem no companheiro de bola do Morales, no carinha de azul lá atrás no meio da foto e na moça de casaco vermelho ao lado dele, no cinegrafista e no carinha marrom de boné preto atrás da mulher de jaqueta amarela.

Maio 4, 2007

Sina

Tornar-te-ás psicanalista,
interpretarás sonhos.
E jogarás no bicho.

Maio 2, 2007

Willy Wonka do meu saco

Eu era uma criança e a Fantástica Fábrica de Chocolate era uma fábula. Tim Burton consegui filmar uma Fantástica Fábrica de Chocolate para emos. O novo Fábrica de Chocolate é emotional hardcore.

Achava o Wonka do Gene Wilder só um pouquinho cruel e muito legal, às vezes ele parecia esquisito. O Wonka de Johnny Depp é muito perverso, o tempo todo esquisito e só às vezes legal.

Era uma delícia assistir ao primeira Fantástica Fábrica adorando Willy Wonka e desconfiando muito de vez em quando que ele podia ser perigoso. Na nova versão eu fico tentando muito gostar do Willy mas ele não deixa, é descaradamente malvado, é chato e quase andrógino, o que me faz desconfiar o tempo todo da sua sexualidade e do seu caráter. Passei a maior parte do filme fazendo um grande esforço para não achar o sr. Wonka de pancake e batom um pedófilo sem vergonha (já falaram muito sobre a evidente semelhança com o tarado da Terra do Nunca). Sem contar os Oompa-Loompas vestidos de couro e portando chicotes. Nem mesmo o drama infantil do pequeno Wonka me comoveu, é um saco, diria que a pior parte do hardcore emocional.

A tecnologia também fez mal pro filme. Os cenários estão piores e Willy Wonka ganhou escova progressiva.

Tudo bem que eu era uma criança e não sabia do mal que se esconde no coração dos homens, mas o que me parece hoje — não sou mais criança e não virei emo — é que a Fantástica Fábrica de Chocolates era uma fábula gostosa e virou um drama emo-freudiano estrelado por um perverso polimórfico de chapinha.