Arquivo do dia: novembro 1, 2004

Profecia

E disse Freud, coçando sua barba branca com cara safada e envolto em fumaça de charuto: “Em todo lugar onde três ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, o gordinho que usa barba à minha maneira e que adora parecer descontraído, esse gordinho contará a piada do castelo”.E assim é.
Onde quer que se reúnam psicanalistas e afins, entre eles estará o gordinho instrumento de Freud, o profeta da piada do castelo. Quando ele chega, os psicanalistas mais perspicazes já o reconhecem, comentam em sigilo: “Ali o gordinho da profecia”. E depois do meio, lá pelo fim da reunião, quando o gordo da barda de falso Freud sente o momento exato da descontração, mexe-se com dificuldade na poltrona onde está encalhado, consegue assumir mais ou menos uma posição de quem vai falar e começa:
– Sabem a diferença entre o neurótico, o psicótico e o psicanalista?
Os outros trocam olhares de lá vem o chato da piada do castelo, mas em seguida lembram-se da profecia, substituem a cara de contrariedade por uma mais sublime (sabe aquela cara meio apertadinha de sublime?) e respondem ao gordo como quem reponde ao sagrado: “Não, qual é?”.
O gordo profeta continua, fazendo esforço para sustentar-se ereto na poltrona: “O neurótico constrói castelos no ar, o psicótico mora neles.”, interrompe estrategicamente a piada esperando a interatividade. A magrinha ansiosa dá a deixa: “E o psicanalista?”. “O psicanalista cobra o aluguel.”, solta uma gargalhada exagerada e desaba na poltrona, a barba úmida de suor.
Os demais sorriem apenas, sorrisos de ternura para o gordo porque acham bonito seu esforço em cumprir a profecia, sorriem de satisfação porque foram agraciados pelo momento sagrado da piada do castelo. E olham com amor para o infalível retrato do Freud na parede, onde quer que eles estejam.

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